Relicário

Relicário
(Marcelo D’Ávila)                                                        Amadrinhador: Henrique Scholz

Meu simples galpão de estânciaGuarda lembranças antigas
Em cada nesga de história
Pendurada na parede;
Restos de tempo e memória
Que em rondas quase esquecidas
Reculutei nas distâncias
Em primaveras mais verdes.

Essas relíquias cravadas
No cerne da costaneira
São como livros abertos
Trazendo causos de campo:
Recuerdos vagos, incertos,
Que ao pé de algum fogo bueno
Um viejo de alma embrujada
Contava pra os pirilampos.

Meu galpão é um relicário
Com tesouros bem guardados...

Nas rudes obras de arte
Há uma cambona retinta
Mal sustentada na alça
Pregada à madeira crua:
Quantas noites repetidas
Se aquerenciou entre as brasas
Pra esquentar a água do mate
Sob o candeeiro da lua.

Ao lado, preso de um tento,
Um par de rosetas gastas
Lembra estrelas temporonas
Clareando o céu do galpão;
Vão longe as tardes de doma
Em que as esporas de prata
Riscavam o lombo tenso
De algum bagual redomão.

Acomodado num canto,
Em seu mutismo de sombra,
Um rádio a válvula espera
Que alguém venha despertá-lo:
Nunca mais uma milonga
Sobre ginete e cavalo!
Neste silêncio, o espanto
De quem se sabe tapera.

Também enfeita a parede
Uma guampa retorcida
Que fez as vezes de lança
Em bravas brigas de touro -
E hoje, depois de curtida,
É o pote pra canha branca
Que sempre mata minha sede
Quando desfilo no mouro.

Lá fora, bem junto à porta,
Onde o sol brinca de artista
Desenhando silhuetas
Entre as janelas fechadas
Uma roda de carreta -
Com as raias gastas e tortas –
Recorda quieta, intimista,
Seu tempo de carreteadas.

Tantos espólios da lida
Que o tempo juntou aos poucos
Neste campeiro inventário
Em madeira emoldurado;
Se os poetas, como os loucos,
Inventam sua própria vida,
Meu galpão é um relicário
Com tesouros bem guardados...

Nas tardes frias de junho
Quando o sol dorme mais cedo
E um chimarrão a capricho
Vem trazer reminiscências
Eu adivinho os segredos
Que se escondem pelos nichos
E me planto, mais terrunho,
No ventre da minha querência.

E quando a china maleva
Que tropeia a campo fora
Me pealar nessas andanças
Nos rumos da imensidão,
Será chegada minha hora –
Da vida nada se leva! –
Eu também serei lembrança
Nas paredes do galpão.


Declamador: Valdemar Camargo